Por que a taxa de crescimento dos países produtores de petróleo ficou dentro da média?

Seguindo a sequência de textos em que abordaremos os impactos do petróleo na economia global, hoje trazemos uma análise de como a abundância de recursos naturais não refletem crescimento econômico consistente. Esse artigo nos auxilia a compreender alguns dos motivos que desencadeiam a estagnação de economias baseadas em commodities devido a forma como gerem os recursos adquiridos. Historicamente, pode-se analisar o desenvolvimento econômico de nações com ou sem recursos naturais. Dessa forma, o crescimento econômico acompanha o a existência de riqueza natural, o que foi evidenciado entre os anos 1970 e 1990. No entanto, um elevado valor agregado das exportações de recursos naturais em relação ao PIB tendeu a experimentar um crescimento mais lento durante os vinte anos seguintes. Por outro lado, no que diz respeito ao petróleo, suas receitas poderiam ter rendido alto crescimento econômico por conta do investimento feito na economia, pois se enquadram num perfil capital intensivo. A grande dúvida que fica é “por que a taxa de crescimento dos países produtores de petróleo ficou dentro da média, quando deveriam ter ficado acima? ”.



Para desenvolver algumas abordagens para respondermos essa questão, enumeramos os seguintes tópico:

1. Crescimento substancial de recursos naturais promove desindustrialização (doença holandesa). Em primeiro lugar, uma alta demanda por recursos naturais significa procura por bens não comerciáveis ​​e, consequentemente, afeta a alocação de mão de obra e capital para o setor industrial. Com isso, quando uma economia tem a experiência de um boom de recursos naturais, o setor manufatureiro tende a encolher e o setor de bens não comercializáveis ​​tende a se expandir. Nesse sentido, a questão sobre os efeitos no crescimento a longo prazo da produção de recursos naturais ou abundância dos mesmos foi estudada para se entender se a produção de recursos naturais promove desindustrialização, ou seja, doença holandesa. Modelos de doenças holandesa demonstram que a existência de grandes setores dos recursos naturais, ou booms nesses setores de recursos naturais, irão afetar a distribuição do emprego em toda a economia, principalmente puxados por efeitos de riqueza de recursos dentro e fora dos setores não transacionáveis.


Ainda que a contração do setor manufatureiro seja tratada como um problema e denominado “doença”, para os economistas neoclássicos, não há nada prejudicial sobre o declínio na fabricação se as condições de concorrência prevalecerem na economia. A doença holandesa pode ser prejudicial e causadora do crescimento lento, porém tem de ser analisado se as fontes de crescimento na indústria transformadora, tais como as ligações para trás e para a frente; e o learning-by-doing, são afetadas porexternalidades da produção. A consequência de desindustrialização puxado por um crescimento de recursos naturais advém do resultado de dois efeitos distintos:

(I) o efeito deslocamento, ou seja, efeitos diretos do crescimento de recursos naturais sobre o deslocamento de fatores comuns dos outros setores da economia para o setor em que o crescimento ocorreu;

(II) e o efeito renda, que expressa as consequências do boom sobre o tamanho e composição da demanda. Dessa forma, a Doença Holandesa é um efeito intersetorial causado por um alto crescimento no setor de recursos naturais em uma economia aberta e em pleno emprego. Portanto, para se manter a economia eficiente, há uma alteração da estrutura produtiva frente as alterações nas dotações do país. É por isso que fica inviável deduzir desse mecanismo de ajuste que essa desindustrialização leve a um crescimento econômico mais lento, a não ser uma pressão para a intervenção governamental que acabe gerando problemas na economia.


2. O investimento em inovação e em outros setores é deixado de lado.

Economias baseadas em recursos naturais acabam sendo mais propensas a choques dos preços mundiais das commodities, pois a abundância de recursos gera uma alta renda por conta da taxação sobre essas atividades e, por consequência, torna a economia acomodada, já que os governantes não dependem da atividade econômica de outros setores para garantir a sobrevivência do Estado, por conta da fácil taxação dos lucros de recursos naturais. Essa estrutura deixa pouco espaço para modelos de crescimento alternativos e, por outro lado, acaba gerando gastos extraordinários, sem compensar a escassez futura dos recursos com uma diversificação econômica. A sociedade torna-se sujeita aos impedimentos impostos pelos grupos controladores do setor de exploração de recursos naturais e sofre com a falta de inovações na economia, com isso, esses grupos se tornam poderosos ao passo que podem obter as receitas do governo a partir de recursos naturais facilmente tributadas. Dessa forma, a inovação tende a ser impedida nas sociedades com recursos naturais abundantes. Outra consequência que a abundância de recursos naturais pode trazer consigo é um aumento da corrupção e ineficiência burocrática, dado que altas rendas tendem a tirar o foco dos governos de investir na capacidade de produzir crescimento econômico via bens públicos, tais como infra-estrutura e tecnologia A competição no setor industrial acaba ficando sujeita exclusivamente aos processos de learning by doing, tendo choques temporários que causam efeitos irreversíveis sobre a estrutura produtiva da economia.

Portanto, pode-se inferir que um setor de recursos naturais altamente influente na economia poderá levar o governo a expulsar a fonte de inovação e os ganhos de produtividade, causando um efeito negativo de forma permanente.


3. Afeta os gastos do governo, tornando-os não planejado e ineficientes. Os governos que controlam os rendimentos dos recursos naturais, tendem a perder essas rendas através dos gastos excessivos ou ineficientes. Pode-se notar na história que as previsões dos preços das commodities nas décadas de 1970 e 1980 acabaram sendo otimista demais, por conta dessa apropriabilidade das receitas por parte dos governos, e isso incentivou grandes investimentos públicos em projetos que eram ineficientes quando as previsões de preços se mostraram erradas.

Contudo, nesse cenário de investimentos ineficientes e com as rendas sendo, a trajetória do PIB em economias baseadas no setor de exploração de recursos naturais tende a ser menor do que teria sido na mesma situação que em economias com políticas ótimas. Isso não quer dizer que, necessariamente, essas economias acabam crescendo menos que as economias com poucos recursos naturais.

Sendo assim, é provável que haja outro fator interferindo nessas decisões negativas do que políticas de desperdício.

Fato de que economias com mais petróleo sofrem interferência na qualidade de

suas instituições de uma forma objetiva, pois diversos estudos acabaram demonstrando o contrário. A questão principal é que a qualidade institucional é comparada implicitamente entre países produtores de petróleo recém-enriquecidos a países de média a alta renda, cujas instituições se desenvolveram ao longo de muitos anos.


4. Receitas de recursos naturais são mais voláteis e isso que afeta a economia. Os recursos naturais por si só não são um problema. A questão principal é que eles tendem a ter preços mundiais mais voláteis do que outros preços e a volatilidade se torna o grande problema. Isso resulta em uma incerteza para os países produtores de produtos primários e também afeta outros setores da economia com recursos abundantes. É sabido que uma maior incerteza pode reduzir a acumulação de fatores por conta de um maior risco, porque aumenta o valor da opção de esperar, embora a

magnitude desses efeitos da volatilidade não seja conhecida com muita precisão.

O principal obstáculo para um crescimento mais rápido são as políticas inadequadas do governo – em particular porque não conseguem compensar a volatilidade das receitas do petróleo. Essa volatilidade causa um efeito negativo no crescimento econômico por conta da incerteza sobre o futuro, o que, por sua vez, desencoraja investimentos do setor privado. A volatilidade afeta mais os países de baixa renda do que os de alta renda, principalmente porque seus mercados financeiros são menos sofisticados e, portanto, menos capazes de ajudar os investidores a se proteger contra os riscos.


A partir da década de 1990, alguns países produtores de petróleo criaram fundos especiais para ajudá-los a gerir suas receitas de recursos e usá-los de forma contra cíclica para compensar o esgotamento futuro ou de ambos. Recentemente, pode-se notar que esses fundos têm sido surpreendentemente ineficazes. Os governos acabam não seguindo sua própria legislação sobre a movimentação dos recursos no fundo e outros elaboram lacunas que prejudicam a eficácia dos fundos.

Portanto, após diversas análises do cenário da abundância de recursos naturais

representarem consequência nem sempre positiva, o que leva a crer na importância da

gestão de recursos financeiros adquiridos frente a sua sazonalidade e sua instabilidade

num mercado com variações consecutivas.

8 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo