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8 de outubro de 2026 · 15 min de leitura

Revisado por Josi Bertuzzi, CEO da BGP

Consolidação contábil: o que é, quando fazer, CPC 36 e como consolidar (com exemplo)

Consolidação contábil: o que é, quando fazer, CPC 36 e como consolidar (com exemplo)

Consolidação contábil é o processo de somar as demonstrações da empresa controladora e de suas controladas como se fossem uma só entidade, eliminando tudo o que acontece apenas dentro do grupo, como vendas e saldos entre as próprias empresas. O resultado são as demonstrações consolidadas, que mostram o grupo perante o mundo externo.

Quem tem mais de um CNPJ precisa entender o que o CPC 36 exige e quando consolidar. A página trata da diferença entre controladora e consolidado, das demonstrações que entram, do passo a passo das eliminações e de um exemplo numérico completo, e fecha com a rotina de uma PME com mais de um CNPJ.

O que é consolidação contábil?

Quando uma empresa controla outra, cada uma continua sendo uma pessoa jurídica separada, com seu CNPJ, seu balanço patrimonial e sua DRE. Só que, do ponto de vista de quem enxerga o grupo (sócios, bancos, investidores, auditores), importa o conjunto. A consolidação junta tudo num único conjunto de números.

O ponto central é a palavra "eliminar". Se a distribuidora vende R$ 300 mil para a loja do próprio grupo, esse valor é receita para a distribuidora e custo para a loja, mas para o grupo ninguém vendeu nada a ninguém: a mercadoria só mudou de prateleira. Somar sem eliminar infla receita, custo, contas a receber e contas a pagar.

Por isso a consolidação não é uma simples soma de planilhas. É uma soma seguida de ajustes que apagam as operações internas. O produto final é um dos grupos de demonstrações contábeis da entidade, só que com o perímetro do grupo inteiro.

Qual é a definição de consolidação e o que diz o CPC 36?

O CPC 36 (R3), "Demonstrações Consolidadas", é a norma brasileira que trata do tema. Ele é correlato à norma internacional IFRS 10 e define a consolidação como a apresentação das demonstrações de controladora e controladas como as de uma única entidade econômica. Para entender como as normas brasileiras e internacionais se conversam, veja o guia de IFRS e CPC.

A palavra-chave do CPC 36 é controle. Uma empresa controla outra quando reúne, ao mesmo tempo, três elementos:

  • Poder sobre a investida, ou seja, direitos que permitem dirigir as atividades que mais afetam seus resultados (em geral, o voto na maioria, mas não só);
  • Exposição ou direito a retornos variáveis da investida, como dividendos e variações de valor;
  • Capacidade de usar o poder para afetar o valor desses retornos.

Repare que o critério não é apenas "ter mais de 50% das cotas". Acordos de sócios, direitos de veto e outros contratos também entram na análise. Percentual de participação é um indício forte, mas a norma olha para o controle de fato.

Quando a participação não chega ao controle, o tratamento é outro: em coligadas e controle conjunto, a empresa usa a equivalência patrimonial, sem somar linha a linha. Já quando o grupo compra uma empresa, o ágio pago entra no ativo intangível e goodwill.

Quando a empresa precisa fazer a consolidação?

Pelo CPC 36, a entidade que é controladora deve apresentar demonstrações consolidadas. Há exceções previstas na própria norma, por exemplo quando a controladora é, ela mesma, controlada por outra que já publica demonstrações consolidadas acessíveis ao público, e seus títulos não são negociados em bolsa ou balcão. Entidades de investimento seguem regra própria.

Na prática, três cenários aparecem:

  • Obrigação legal ou regulatória: companhias abertas, grandes empresas e entidades sujeitas a regulador específico. A exigência depende do porte, do tipo societário e da norma aplicável, e quem responde por isso é o contador responsável pela empresa.
  • Exigência de terceiros: bancos que concedem crédito ao grupo, investidores, fundos e compradores numa operação de fusões e aquisições costumam pedir números consolidados, mesmo quando a lei não obriga.
  • Necessidade de gestão: o dono de um grupo familiar com holding, distribuidora e lojas em CNPJs diferentes precisa saber quanto o grupo todo fatura, lucra e deve. Aqui a consolidação é gerencial, e é o caso mais comum numa PME.

Uma holding que detém participações em várias operacionais é o exemplo clássico: sem consolidar, o balanço da holding mostra só "investimentos" e esconde as dívidas e o caixa de quem realmente opera.

Qual a diferença entre controladora e consolidado?

Quem lê relatórios de grupos vê sempre duas colunas ou dois conjuntos: "controladora" e "consolidado". São visões diferentes da mesma realidade.

Nas demonstrações da controladora (também chamadas individuais), a participação nas controladas aparece numa única linha do ativo, "investimentos", avaliada pelo método da equivalência patrimonial, e o resultado das controladas entra numa única linha da DRE. No consolidado, essa linha desaparece e entram, uma a uma, as receitas, os custos, os ativos e as dívidas das controladas.

Ponto de comparaçãoControladora (individual)Consolidado
PerímetroSó a empresa controladoraControladora e todas as controladas
Participação nas controladasUma linha de investimentos (equivalência patrimonial)Substituída pelos ativos e passivos das controladas
Receita e custosSó os da própria empresaSoma do grupo, sem as operações internas
Sócios minoritários das controladasNão aparecemAparecem como participação de não controladores
Lucro líquido atribuído aos sóciosIgual ao do consolidadoIgual ao da controladora, com a parte dos não controladores separada
Uso principalBase de dividendos e obrigações da pessoa jurídicaVisão do grupo para sócios, bancos e gestão

O lucro atribuível aos controladores é o mesmo nos dois conjuntos. O que muda é o tamanho do balanço, a receita total e o nível de endividamento visível.

Quais demonstrações devem ser consolidadas?

Todo o conjunto completo de demonstrações pode ser apresentado de forma consolidada. Na prática, o grupo consolida:

Na gestão de uma PME, o trio que mais importa é balanço, DRE e fluxo de caixa. A DVA e as notas costumam ser exigências de empresas de maior porte.

Como fazer a consolidação contábil passo a passo?

O processo tem sempre a mesma sequência, seja num sistema, seja numa planilha bem montada.

1. Definir o perímetro

Liste quais empresas o grupo controla e em que percentual. Decida por escrito quais entram na consolidação e registre o motivo de qualquer exclusão. Mudança no perímetro (compra, venda, perda de controle) precisa ser identificada no mês em que acontece.

2. Padronizar datas e políticas

Todas as empresas precisam fechar na mesma data-base e usar os mesmos critérios contábeis para fatos parecidos, como a vida útil dos ativos e a regra de provisão para devedores duvidosos. Se a distribuidora provisiona 3% das vendas a prazo e a loja não provisiona nada, o consolidado fica inconsistente. Um plano de contas comum, ou um "de-para" entre os planos de cada empresa, é o que torna a soma possível.

3. Somar linha a linha

Some ativo com ativo, passivo com passivo, receita com receita, custo com custo, 100% de cada controlada, mesmo quando o grupo detém só 80%. A parte dos sócios minoritários é separada depois.

4. Eliminar o que é interno

Aqui está o coração do trabalho. As eliminações típicas são:

  • Investimento contra patrimônio líquido: o investimento da controladora na controlada é eliminado contra a parte do patrimônio líquido da controlada que pertence a ela;
  • Saldos entre empresas: contas a receber de uma contra contas a pagar da outra, empréstimos entre empresas do grupo, adiantamentos;
  • Transações entre empresas: vendas e compras, serviços prestados e tomados, juros e aluguéis dentro do grupo;
  • Lucros não realizados: se a distribuidora vendeu para a loja com lucro e a mercadoria ainda está no estoque da loja no fim do mês, esse lucro ainda não existe para o grupo e precisa ser eliminado até que a mercadoria seja vendida a um cliente externo.

5. Separar a participação dos não controladores

A parcela do patrimônio líquido e do resultado das controladas que pertence a outros sócios aparece em linha própria. Ela faz parte do patrimônio líquido do consolidado, mas não é do controlador.

6. Conferir e documentar

Três checagens básicas: o ativo consolidado é igual ao passivo mais patrimônio líquido consolidados; o lucro dos controladores no consolidado é igual ao lucro da controladora; e as contas entre empresas do grupo zeram depois das eliminações. Se alguma não fecha, a divergência está num lançamento interno que uma das empresas fez e a outra não.

Exemplo prático de consolidação contábil

Imagine um grupo fictício: a Distribuidora Serra, que controla 80% da Loja Serra. No mês, a distribuidora vendeu R$ 2.000.000, dos quais R$ 300.000 para a própria Loja Serra. A loja vendeu R$ 900.000 a clientes finais e revendeu, nesse mesmo mês, todas as mercadorias que comprou da distribuidora. Valores do mês, em reais, antes de impostos sobre o lucro, para simplificar:

Linha da DREDistribuidora SerraLoja SerraSoma simplesEliminaçãoConsolidado
Receita líquida2.000.000900.0002.900.000(300.000)2.600.000
CMV(1.300.000)(600.000)(1.900.000)300.000(1.600.000)
Lucro bruto700.000300.0001.000.00001.000.000
Despesas operacionais(400.000)(200.000)(600.000)0(600.000)
Resultado operacional300.000100.000400.0000400.000

Veja o que a eliminação fez. A venda de R$ 300.000 entre as duas empresas saiu da receita e também saiu do custo da loja (que registra essa compra como parte do seu CMV). O lucro não mudou, porque a eliminação é neutra no resultado quando a mercadoria já foi vendida para fora. Mas os percentuais mudaram:

Fórmula: margem bruta = lucro bruto ÷ receita líquida

  • Soma simples: R$ 1.000.000 ÷ R$ 2.900.000 = 34,5%;
  • Consolidado: R$ 1.000.000 ÷ R$ 2.600.000 = 38,5%.

A margem operacional também muda: R$ 400.000 ÷ R$ 2.900.000 = 13,8% na soma simples contra R$ 400.000 ÷ R$ 2.600.000 = 15,4% no consolidado. Quem decide olhando a soma simples subestima a rentabilidade do grupo, e quem compara com concorrentes usando receita inflada compara errado.

Agora o lado do patrimônio. Suponha que a Distribuidora Serra pagou R$ 800.000 por 80% da Loja Serra, cujo patrimônio líquido é de R$ 1.000.000. Na eliminação do investimento: R$ 800.000 de investimento contra 80% do patrimônio da loja, que também são R$ 800.000. Os 20% restantes, R$ 200.000, ficam no consolidado como participação de não controladores. E o resultado de R$ 100.000 da loja se divide em R$ 80.000 para a distribuidora e R$ 20.000 para os minoritários. Se a distribuidora tivesse pago mais que o patrimônio proporcional, a diferença seria tratada como ágio, assunto do goodwill e do teste de impairment.

Por fim, suponha que a distribuidora tenha R$ 120.000 a receber da loja. Esse valor está no ativo da distribuidora e no passivo da loja. No consolidado, os dois somem, e o ativo e o passivo totais caem R$ 120.000 cada. Para o grupo, ninguém deve a ninguém.

Como a consolidação funciona na rotina de uma PME

A maioria das PMEs com mais de um CNPJ não tem uma obrigação formal de publicar demonstrações consolidadas, mas tem a necessidade real de saber o resultado do grupo. É o dono que abriu uma segunda empresa para a operação de e-commerce, uma terceira para o imóvel e uma holding para o patrimônio. A rotina de consolidação gerencial costuma seguir este caminho:

  1. fechar cada empresa no mesmo dia do mês, com conciliação bancária feita;
  2. exportar o balancete de verificação e a DRE de cada empresa já no plano de contas padronizado;
  3. marcar, nos lançamentos, tudo o que é operação entre empresas do grupo (venda, rateio de despesa, empréstimo, aluguel);
  4. somar, eliminar e conferir os três testes citados acima;
  5. levar o consolidado para a reunião de resultado, ao lado de cada empresa individual.

Erros comuns

  • Somar sem eliminar. Receita e dívida ficam infladas, margem fica subestimada e o grupo parece maior do que é;
  • Empresas lançando o mesmo fato em datas ou valores diferentes. A loja registra a compra no dia 28, a distribuidora registra a venda no dia 2. A conta entre empresas não zera;
  • Empréstimo entre empresas sem contrato nem lançamento nos dois lados. O dinheiro sai de um caixa e entra em outro sem rastro, e o saldo some ou duplica;
  • Plano de contas diferente em cada empresa. A mesma despesa cai em contas diferentes e o consolidado vira um quebra-cabeça. A estrutura de centros de custo ajuda a manter o critério;
  • Esquecer o lucro não realizado em estoque. Venda interna com margem que ainda não chegou ao cliente final infla o resultado do mês;
  • Misturar finanças pessoais dos sócios com as das empresas. O consolidado do grupo nunca fecha se o cartão do sócio paga despesa de uma das empresas. Veja como separar finanças pessoais e empresariais.

Como ler o consolidado para decidir

Compare três coisas. Primeiro, a margem consolidada com a de cada empresa: se uma operacional tem margem alta só porque vende para o grupo a preço favorecido, o consolidado mostra a margem real. Segundo, o caixa: o caixa do grupo pode estar saudável enquanto uma empresa está no vermelho, e ao contrário. Terceiro, a dívida: um banco olha o endividamento do grupo, não o da empresa isolada. Se o consolidado piora, procure primeiro qual empresa explica a variação e depois se o problema é operacional (venda, custo) ou financeiro (prazo, juros). A partir daí, o plano de ação vira pauta da reunião de resultado, que é justamente o ritmo mensal que a Controladoria organiza.

Consolidação societária e consolidação gerencial: qual a diferença?

A consolidação societária segue o CPC 36, é revisada por auditores quando exigida e tem regras rígidas de perímetro, mensuração e divulgação. A consolidação gerencial usa a mesma lógica de somar e eliminar, mas é feita para decidir, não para publicar. Ela pode ser mensal, mais rápida, ter linhas mais enxutas e incluir empresas que a norma não exigiria, como a pessoa jurídica que serve só ao dono. Para entender a camada gerencial, veja contabilidade gerencial.

O ideal é que as duas conversem: a gerencial deve poder ser reconciliada com a societária, para que a diretoria e o contador falem dos mesmos números. O pacote mensal que sai dessa consolidação entra nos relatórios gerenciais e pode ser acompanhado num dashboard financeiro, com os dados vindo de um ERP ou de planilhas integradas. Em grupos maiores, a auditoria costuma revisar justamente as eliminações, e bons controles internos reduzem o retrabalho.

Falar com um especialista da BGP

Onde a consolidação entra no trabalho da BGP

A consolidação gerencial de grupos com vários CNPJs aparece no dia a dia da Controladoria da BGP, que opera o financeiro da empresa em ciclo mensal, com conciliação, fluxo de caixa projetado e relatórios no GO BI, e lê os números junto com a gestão. Quando o dado está espalhado em vários sistemas e planilhas, o Analytics integra as fontes e publica os dashboards. Para momentos como venda ou compra de empresa, o On Demand prepara números organizados e defensáveis. A decisão de qual perímetro e quais critérios usar numa demonstração oficial continua sendo do contador responsável pela empresa.

Perguntas frequentes sobre consolidação contábil

O que diz o CPC 36?

O CPC 36 (R3) estabelece que a entidade controladora deve apresentar demonstrações consolidadas, define controle por poder, retornos variáveis e capacidade de afetar esses retornos, e descreve os procedimentos: somar linha a linha, eliminar saldos e transações do grupo e destacar a participação dos não controladores. É correlato ao IFRS 10.

Qual é a definição de consolidação?

Consolidação é a apresentação das demonstrações de uma controladora e de suas controladas como se fossem de uma única entidade. As contas são somadas e as operações entre as empresas do grupo, como vendas, saldos a receber e a pagar e o investimento na controlada, são eliminadas.

Quais demonstrações devem ser consolidadas?

O conjunto completo pode ser consolidado: balanço patrimonial, DRE, demonstração do resultado abrangente, fluxos de caixa, mutações do patrimônio líquido, DVA quando exigida e notas explicativas. Para a gestão de uma PME, balanço, DRE e fluxo de caixa são os principais.

Qual a diferença entre controladora e consolidado?

A controladora mostra só a empresa-mãe, com as participações em controladas numa linha de investimentos. O consolidado mostra o grupo inteiro, com ativos, passivos, receitas e custos de todas as empresas, sem as operações internas, e separa a parte dos sócios minoritários. O lucro dos controladores é o mesmo nos dois.

Minha empresa precisa consolidar?

Depende do porte, do tipo societário e das normas que se aplicam a ela, e o contador responsável é quem confirma a obrigação. Mesmo sem obrigação legal, quem tem mais de um CNPJ sob o mesmo controle ganha muito ao consolidar de forma gerencial para enxergar o resultado e a dívida do grupo.

O que são eliminações na consolidação?

São os ajustes que retiram do consolidado o que só existe dentro do grupo: o investimento da controladora contra o patrimônio da controlada, saldos a receber e a pagar entre as empresas, vendas, compras e juros internos e o lucro ainda não realizado em estoque.

O que é participação de não controladores?

É a parte do patrimônio líquido e do resultado de uma controlada que pertence a sócios de fora do controle. Se a controladora tem 80%, os outros 20% aparecem no consolidado em linha separada, dentro do patrimônio líquido e na divisão do lucro.

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