Revisado por Josi Bertuzzi, CEO da BGP
Consolidação contábil: o que é, quando fazer, CPC 36 e como consolidar (com exemplo)

Consolidação contábil é o processo de somar as demonstrações da empresa controladora e de suas controladas como se fossem uma só entidade, eliminando tudo o que acontece apenas dentro do grupo, como vendas e saldos entre as próprias empresas. O resultado são as demonstrações consolidadas, que mostram o grupo perante o mundo externo.
Quem tem mais de um CNPJ precisa entender o que o CPC 36 exige e quando consolidar. A página trata da diferença entre controladora e consolidado, das demonstrações que entram, do passo a passo das eliminações e de um exemplo numérico completo, e fecha com a rotina de uma PME com mais de um CNPJ.
O que é consolidação contábil?
Quando uma empresa controla outra, cada uma continua sendo uma pessoa jurídica separada, com seu CNPJ, seu balanço patrimonial e sua DRE. Só que, do ponto de vista de quem enxerga o grupo (sócios, bancos, investidores, auditores), importa o conjunto. A consolidação junta tudo num único conjunto de números.
O ponto central é a palavra "eliminar". Se a distribuidora vende R$ 300 mil para a loja do próprio grupo, esse valor é receita para a distribuidora e custo para a loja, mas para o grupo ninguém vendeu nada a ninguém: a mercadoria só mudou de prateleira. Somar sem eliminar infla receita, custo, contas a receber e contas a pagar.
Por isso a consolidação não é uma simples soma de planilhas. É uma soma seguida de ajustes que apagam as operações internas. O produto final é um dos grupos de demonstrações contábeis da entidade, só que com o perímetro do grupo inteiro.
Qual é a definição de consolidação e o que diz o CPC 36?
O CPC 36 (R3), "Demonstrações Consolidadas", é a norma brasileira que trata do tema. Ele é correlato à norma internacional IFRS 10 e define a consolidação como a apresentação das demonstrações de controladora e controladas como as de uma única entidade econômica. Para entender como as normas brasileiras e internacionais se conversam, veja o guia de IFRS e CPC.
A palavra-chave do CPC 36 é controle. Uma empresa controla outra quando reúne, ao mesmo tempo, três elementos:
- Poder sobre a investida, ou seja, direitos que permitem dirigir as atividades que mais afetam seus resultados (em geral, o voto na maioria, mas não só);
- Exposição ou direito a retornos variáveis da investida, como dividendos e variações de valor;
- Capacidade de usar o poder para afetar o valor desses retornos.
Repare que o critério não é apenas "ter mais de 50% das cotas". Acordos de sócios, direitos de veto e outros contratos também entram na análise. Percentual de participação é um indício forte, mas a norma olha para o controle de fato.
Quando a participação não chega ao controle, o tratamento é outro: em coligadas e controle conjunto, a empresa usa a equivalência patrimonial, sem somar linha a linha. Já quando o grupo compra uma empresa, o ágio pago entra no ativo intangível e goodwill.
Quando a empresa precisa fazer a consolidação?
Pelo CPC 36, a entidade que é controladora deve apresentar demonstrações consolidadas. Há exceções previstas na própria norma, por exemplo quando a controladora é, ela mesma, controlada por outra que já publica demonstrações consolidadas acessíveis ao público, e seus títulos não são negociados em bolsa ou balcão. Entidades de investimento seguem regra própria.
Na prática, três cenários aparecem:
- Obrigação legal ou regulatória: companhias abertas, grandes empresas e entidades sujeitas a regulador específico. A exigência depende do porte, do tipo societário e da norma aplicável, e quem responde por isso é o contador responsável pela empresa.
- Exigência de terceiros: bancos que concedem crédito ao grupo, investidores, fundos e compradores numa operação de fusões e aquisições costumam pedir números consolidados, mesmo quando a lei não obriga.
- Necessidade de gestão: o dono de um grupo familiar com holding, distribuidora e lojas em CNPJs diferentes precisa saber quanto o grupo todo fatura, lucra e deve. Aqui a consolidação é gerencial, e é o caso mais comum numa PME.
Uma holding que detém participações em várias operacionais é o exemplo clássico: sem consolidar, o balanço da holding mostra só "investimentos" e esconde as dívidas e o caixa de quem realmente opera.
Qual a diferença entre controladora e consolidado?
Quem lê relatórios de grupos vê sempre duas colunas ou dois conjuntos: "controladora" e "consolidado". São visões diferentes da mesma realidade.
Nas demonstrações da controladora (também chamadas individuais), a participação nas controladas aparece numa única linha do ativo, "investimentos", avaliada pelo método da equivalência patrimonial, e o resultado das controladas entra numa única linha da DRE. No consolidado, essa linha desaparece e entram, uma a uma, as receitas, os custos, os ativos e as dívidas das controladas.
| Ponto de comparação | Controladora (individual) | Consolidado |
|---|---|---|
| Perímetro | Só a empresa controladora | Controladora e todas as controladas |
| Participação nas controladas | Uma linha de investimentos (equivalência patrimonial) | Substituída pelos ativos e passivos das controladas |
| Receita e custos | Só os da própria empresa | Soma do grupo, sem as operações internas |
| Sócios minoritários das controladas | Não aparecem | Aparecem como participação de não controladores |
| Lucro líquido atribuído aos sócios | Igual ao do consolidado | Igual ao da controladora, com a parte dos não controladores separada |
| Uso principal | Base de dividendos e obrigações da pessoa jurídica | Visão do grupo para sócios, bancos e gestão |
O lucro atribuível aos controladores é o mesmo nos dois conjuntos. O que muda é o tamanho do balanço, a receita total e o nível de endividamento visível.
Quais demonstrações devem ser consolidadas?
Todo o conjunto completo de demonstrações pode ser apresentado de forma consolidada. Na prática, o grupo consolida:
- o balanço patrimonial, com ativos e passivos do grupo, conforme o guia de ativo e passivo;
- a DRE e a demonstração do resultado abrangente;
- a demonstração dos fluxos de caixa, em que os fluxos entre empresas do grupo também são eliminados;
- a DMPL, com o patrimônio líquido dos controladores e dos não controladores;
- a DVA, quando exigida, e as notas explicativas, que explicam quais empresas entram no perímetro e quais são as políticas contábeis.
Na gestão de uma PME, o trio que mais importa é balanço, DRE e fluxo de caixa. A DVA e as notas costumam ser exigências de empresas de maior porte.
Como fazer a consolidação contábil passo a passo?
O processo tem sempre a mesma sequência, seja num sistema, seja numa planilha bem montada.
1. Definir o perímetro
Liste quais empresas o grupo controla e em que percentual. Decida por escrito quais entram na consolidação e registre o motivo de qualquer exclusão. Mudança no perímetro (compra, venda, perda de controle) precisa ser identificada no mês em que acontece.
2. Padronizar datas e políticas
Todas as empresas precisam fechar na mesma data-base e usar os mesmos critérios contábeis para fatos parecidos, como a vida útil dos ativos e a regra de provisão para devedores duvidosos. Se a distribuidora provisiona 3% das vendas a prazo e a loja não provisiona nada, o consolidado fica inconsistente. Um plano de contas comum, ou um "de-para" entre os planos de cada empresa, é o que torna a soma possível.
3. Somar linha a linha
Some ativo com ativo, passivo com passivo, receita com receita, custo com custo, 100% de cada controlada, mesmo quando o grupo detém só 80%. A parte dos sócios minoritários é separada depois.
4. Eliminar o que é interno
Aqui está o coração do trabalho. As eliminações típicas são:
- Investimento contra patrimônio líquido: o investimento da controladora na controlada é eliminado contra a parte do patrimônio líquido da controlada que pertence a ela;
- Saldos entre empresas: contas a receber de uma contra contas a pagar da outra, empréstimos entre empresas do grupo, adiantamentos;
- Transações entre empresas: vendas e compras, serviços prestados e tomados, juros e aluguéis dentro do grupo;
- Lucros não realizados: se a distribuidora vendeu para a loja com lucro e a mercadoria ainda está no estoque da loja no fim do mês, esse lucro ainda não existe para o grupo e precisa ser eliminado até que a mercadoria seja vendida a um cliente externo.
5. Separar a participação dos não controladores
A parcela do patrimônio líquido e do resultado das controladas que pertence a outros sócios aparece em linha própria. Ela faz parte do patrimônio líquido do consolidado, mas não é do controlador.
6. Conferir e documentar
Três checagens básicas: o ativo consolidado é igual ao passivo mais patrimônio líquido consolidados; o lucro dos controladores no consolidado é igual ao lucro da controladora; e as contas entre empresas do grupo zeram depois das eliminações. Se alguma não fecha, a divergência está num lançamento interno que uma das empresas fez e a outra não.
Exemplo prático de consolidação contábil
Imagine um grupo fictício: a Distribuidora Serra, que controla 80% da Loja Serra. No mês, a distribuidora vendeu R$ 2.000.000, dos quais R$ 300.000 para a própria Loja Serra. A loja vendeu R$ 900.000 a clientes finais e revendeu, nesse mesmo mês, todas as mercadorias que comprou da distribuidora. Valores do mês, em reais, antes de impostos sobre o lucro, para simplificar:
| Linha da DRE | Distribuidora Serra | Loja Serra | Soma simples | Eliminação | Consolidado |
|---|---|---|---|---|---|
| Receita líquida | 2.000.000 | 900.000 | 2.900.000 | (300.000) | 2.600.000 |
| CMV | (1.300.000) | (600.000) | (1.900.000) | 300.000 | (1.600.000) |
| Lucro bruto | 700.000 | 300.000 | 1.000.000 | 0 | 1.000.000 |
| Despesas operacionais | (400.000) | (200.000) | (600.000) | 0 | (600.000) |
| Resultado operacional | 300.000 | 100.000 | 400.000 | 0 | 400.000 |
Veja o que a eliminação fez. A venda de R$ 300.000 entre as duas empresas saiu da receita e também saiu do custo da loja (que registra essa compra como parte do seu CMV). O lucro não mudou, porque a eliminação é neutra no resultado quando a mercadoria já foi vendida para fora. Mas os percentuais mudaram:
Fórmula: margem bruta = lucro bruto ÷ receita líquida
- Soma simples: R$ 1.000.000 ÷ R$ 2.900.000 = 34,5%;
- Consolidado: R$ 1.000.000 ÷ R$ 2.600.000 = 38,5%.
A margem operacional também muda: R$ 400.000 ÷ R$ 2.900.000 = 13,8% na soma simples contra R$ 400.000 ÷ R$ 2.600.000 = 15,4% no consolidado. Quem decide olhando a soma simples subestima a rentabilidade do grupo, e quem compara com concorrentes usando receita inflada compara errado.
Agora o lado do patrimônio. Suponha que a Distribuidora Serra pagou R$ 800.000 por 80% da Loja Serra, cujo patrimônio líquido é de R$ 1.000.000. Na eliminação do investimento: R$ 800.000 de investimento contra 80% do patrimônio da loja, que também são R$ 800.000. Os 20% restantes, R$ 200.000, ficam no consolidado como participação de não controladores. E o resultado de R$ 100.000 da loja se divide em R$ 80.000 para a distribuidora e R$ 20.000 para os minoritários. Se a distribuidora tivesse pago mais que o patrimônio proporcional, a diferença seria tratada como ágio, assunto do goodwill e do teste de impairment.
Por fim, suponha que a distribuidora tenha R$ 120.000 a receber da loja. Esse valor está no ativo da distribuidora e no passivo da loja. No consolidado, os dois somem, e o ativo e o passivo totais caem R$ 120.000 cada. Para o grupo, ninguém deve a ninguém.
Como a consolidação funciona na rotina de uma PME
A maioria das PMEs com mais de um CNPJ não tem uma obrigação formal de publicar demonstrações consolidadas, mas tem a necessidade real de saber o resultado do grupo. É o dono que abriu uma segunda empresa para a operação de e-commerce, uma terceira para o imóvel e uma holding para o patrimônio. A rotina de consolidação gerencial costuma seguir este caminho:
- fechar cada empresa no mesmo dia do mês, com conciliação bancária feita;
- exportar o balancete de verificação e a DRE de cada empresa já no plano de contas padronizado;
- marcar, nos lançamentos, tudo o que é operação entre empresas do grupo (venda, rateio de despesa, empréstimo, aluguel);
- somar, eliminar e conferir os três testes citados acima;
- levar o consolidado para a reunião de resultado, ao lado de cada empresa individual.
Erros comuns
- Somar sem eliminar. Receita e dívida ficam infladas, margem fica subestimada e o grupo parece maior do que é;
- Empresas lançando o mesmo fato em datas ou valores diferentes. A loja registra a compra no dia 28, a distribuidora registra a venda no dia 2. A conta entre empresas não zera;
- Empréstimo entre empresas sem contrato nem lançamento nos dois lados. O dinheiro sai de um caixa e entra em outro sem rastro, e o saldo some ou duplica;
- Plano de contas diferente em cada empresa. A mesma despesa cai em contas diferentes e o consolidado vira um quebra-cabeça. A estrutura de centros de custo ajuda a manter o critério;
- Esquecer o lucro não realizado em estoque. Venda interna com margem que ainda não chegou ao cliente final infla o resultado do mês;
- Misturar finanças pessoais dos sócios com as das empresas. O consolidado do grupo nunca fecha se o cartão do sócio paga despesa de uma das empresas. Veja como separar finanças pessoais e empresariais.
Como ler o consolidado para decidir
Compare três coisas. Primeiro, a margem consolidada com a de cada empresa: se uma operacional tem margem alta só porque vende para o grupo a preço favorecido, o consolidado mostra a margem real. Segundo, o caixa: o caixa do grupo pode estar saudável enquanto uma empresa está no vermelho, e ao contrário. Terceiro, a dívida: um banco olha o endividamento do grupo, não o da empresa isolada. Se o consolidado piora, procure primeiro qual empresa explica a variação e depois se o problema é operacional (venda, custo) ou financeiro (prazo, juros). A partir daí, o plano de ação vira pauta da reunião de resultado, que é justamente o ritmo mensal que a Controladoria organiza.
Consolidação societária e consolidação gerencial: qual a diferença?
A consolidação societária segue o CPC 36, é revisada por auditores quando exigida e tem regras rígidas de perímetro, mensuração e divulgação. A consolidação gerencial usa a mesma lógica de somar e eliminar, mas é feita para decidir, não para publicar. Ela pode ser mensal, mais rápida, ter linhas mais enxutas e incluir empresas que a norma não exigiria, como a pessoa jurídica que serve só ao dono. Para entender a camada gerencial, veja contabilidade gerencial.
O ideal é que as duas conversem: a gerencial deve poder ser reconciliada com a societária, para que a diretoria e o contador falem dos mesmos números. O pacote mensal que sai dessa consolidação entra nos relatórios gerenciais e pode ser acompanhado num dashboard financeiro, com os dados vindo de um ERP ou de planilhas integradas. Em grupos maiores, a auditoria costuma revisar justamente as eliminações, e bons controles internos reduzem o retrabalho.
Onde a consolidação entra no trabalho da BGP
A consolidação gerencial de grupos com vários CNPJs aparece no dia a dia da Controladoria da BGP, que opera o financeiro da empresa em ciclo mensal, com conciliação, fluxo de caixa projetado e relatórios no GO BI, e lê os números junto com a gestão. Quando o dado está espalhado em vários sistemas e planilhas, o Analytics integra as fontes e publica os dashboards. Para momentos como venda ou compra de empresa, o On Demand prepara números organizados e defensáveis. A decisão de qual perímetro e quais critérios usar numa demonstração oficial continua sendo do contador responsável pela empresa.
Perguntas frequentes sobre consolidação contábil
O que diz o CPC 36?
O CPC 36 (R3) estabelece que a entidade controladora deve apresentar demonstrações consolidadas, define controle por poder, retornos variáveis e capacidade de afetar esses retornos, e descreve os procedimentos: somar linha a linha, eliminar saldos e transações do grupo e destacar a participação dos não controladores. É correlato ao IFRS 10.
Qual é a definição de consolidação?
Consolidação é a apresentação das demonstrações de uma controladora e de suas controladas como se fossem de uma única entidade. As contas são somadas e as operações entre as empresas do grupo, como vendas, saldos a receber e a pagar e o investimento na controlada, são eliminadas.
Quais demonstrações devem ser consolidadas?
O conjunto completo pode ser consolidado: balanço patrimonial, DRE, demonstração do resultado abrangente, fluxos de caixa, mutações do patrimônio líquido, DVA quando exigida e notas explicativas. Para a gestão de uma PME, balanço, DRE e fluxo de caixa são os principais.
Qual a diferença entre controladora e consolidado?
A controladora mostra só a empresa-mãe, com as participações em controladas numa linha de investimentos. O consolidado mostra o grupo inteiro, com ativos, passivos, receitas e custos de todas as empresas, sem as operações internas, e separa a parte dos sócios minoritários. O lucro dos controladores é o mesmo nos dois.
Minha empresa precisa consolidar?
Depende do porte, do tipo societário e das normas que se aplicam a ela, e o contador responsável é quem confirma a obrigação. Mesmo sem obrigação legal, quem tem mais de um CNPJ sob o mesmo controle ganha muito ao consolidar de forma gerencial para enxergar o resultado e a dívida do grupo.
O que são eliminações na consolidação?
São os ajustes que retiram do consolidado o que só existe dentro do grupo: o investimento da controladora contra o patrimônio da controlada, saldos a receber e a pagar entre as empresas, vendas, compras e juros internos e o lucro ainda não realizado em estoque.
O que é participação de não controladores?
É a parte do patrimônio líquido e do resultado de uma controlada que pertence a sócios de fora do controle. Se a controladora tem 80%, os outros 20% aparecem no consolidado em linha separada, dentro do patrimônio líquido e na divisão do lucro.


