DRE: o que é, estrutura linha a linha, gerencial x contábil e exemplo

DRE (Demonstração do Resultado do Exercício) é o relatório que mostra, em ordem, quanto a empresa vendeu, quanto gastou para entregar e operar e quanto sobrou de lucro ou prejuízo em um período. Ela parte da receita bruta, desce pelos custos e despesas e termina no lucro líquido.
Neste guia você encontra a estrutura da DRE linha a linha em tabela, a diferença entre DRE gerencial e DRE contábil, a diferença entre DRE e fluxo de caixa (DFC), um exemplo numérico completo com fórmulas, um modelo para montar a sua e os erros mais comuns em PMEs.
O que é DRE (Demonstração do Resultado do Exercício)?
A DRE, também chamada de demonstrativo de resultado, demonstração de resultado do exercício ou demonstrativo de resultados do exercício, é uma das demonstrações financeiras obrigatórias previstas na Lei das Sociedades por Ações (Lei 6.404/1976, art. 187) e regulada pelo CPC 26. Ela responde a uma pergunta simples: a empresa ganhou ou perdeu dinheiro no período?
O "exercício" é o período analisado. Na contabilidade oficial, costuma ser o ano. Na gestão, o período útil é o mês, porque é com ele que o sócio consegue corrigir a rota a tempo.
A DRE trabalha pelo regime de competência: a venda entra no mês em que acontece, mesmo que o cliente pague depois, e a despesa entra no mês em que foi incorrida, mesmo que seja paga antes ou depois. É por isso que o resultado da DRE quase nunca coincide com o saldo do banco.
Para que serve a DRE
- Medir a lucratividade do negócio e de cada etapa dele (bruta, operacional, líquida).
- Encontrar o problema: margem bruta baixa indica preço ou custo errado; despesa operacional alta indica estrutura pesada; resultado financeiro negativo indica dívida cara.
- Comparar períodos, meses e anos, para ver tendência e sazonalidade.
- Dar base a decisões: reajustar preço, cortar custo, contratar, pedir crédito, vender a empresa.
- Prestar contas a sócios, bancos, investidores e ao fisco.
Qual a estrutura da DRE? Linha a linha
A estrutura da DRE é uma cascata: cada linha parte do resultado da anterior. Abaixo está a ordem clássica, com o que entra em cada linha e como ela é calculada.
| Linha da DRE | O que entra | Como se chega |
|---|---|---|
| Receita operacional bruta | Tudo que foi faturado com vendas de produtos e serviços no período | Soma das vendas faturadas |
| (-) Deduções da receita | Impostos sobre vendas (ICMS, PIS, COFINS, ISS, Simples), devoluções, abatimentos e descontos incondicionais | Subtração direta |
| = Receita operacional líquida | A receita que de fato pertence à empresa | Receita bruta - deduções |
| (-) CMV / CPV / CSP | Custo da mercadoria vendida (comércio), do produto vendido (indústria) ou do serviço prestado (serviços) | Subtração direta |
| = Lucro bruto | O que sobra da venda depois de pagar o que foi preciso para entregá-la | Receita líquida - custo |
| (-) Despesas com vendas | Comissões, marketing, frete de entrega, equipe comercial | Subtração direta |
| (-) Despesas administrativas | Salários do administrativo, aluguel, contabilidade, sistemas, energia | Subtração direta |
| (-) Depreciação e amortização | Desgaste de máquinas, veículos, equipamentos e intangíveis | Subtração direta |
| +/- Outras receitas e despesas operacionais | Venda de imobilizado, multas, recuperação de despesas | Soma ou subtração |
| = Resultado operacional (EBIT) | Lucro da operação antes do resultado financeiro e dos impostos sobre o lucro | Lucro bruto - despesas operacionais |
| +/- Resultado financeiro | Receitas financeiras (rendimento de aplicações) menos despesas financeiras (juros, tarifas, IOF) | Receitas - despesas financeiras |
| = Resultado antes dos tributos (LAIR) | Lucro antes de IRPJ e CSLL | EBIT +/- resultado financeiro |
| (-) IRPJ e CSLL | Imposto de renda e contribuição social sobre o lucro | Subtração direta |
| = Lucro (ou prejuízo) líquido | O resultado final do período, que pode ser distribuído ou retido | LAIR - IRPJ e CSLL |
Em empresas maiores, a DRE contábil ainda traz participações de empregados e administradores antes do lucro líquido. Em PMEs, essa linha costuma não existir.
Atenção ao posicionamento de cada linha
Boa parte dos erros de DRE vem de colocar o gasto na linha errada. Frete de compra é custo da mercadoria; frete de entrega ao cliente é despesa de vendas. Salário de quem produz é custo; salário do financeiro é despesa administrativa. Juros de empréstimo são resultado financeiro, não despesa administrativa. Quando a classificação muda de um mês para o outro, o gráfico de tendência deixa de ser confiável.
Como fazer uma DRE passo a passo?
- Defina o período e o regime. Mensal, por competência. Use sempre o mesmo critério.
- Monte o plano de contas. Cada lançamento financeiro precisa de uma categoria que corresponda a uma linha da DRE.
- Levante a receita bruta pela data de emissão da nota ou da prestação do serviço, não pela data do recebimento.
- Apure as deduções com base nas notas fiscais e no regime tributário da empresa.
- Calcule o custo. No comércio, estoque inicial + compras - estoque final. Em serviços, o custo direto da equipe e dos insumos da entrega.
- Classifique as despesas em vendas, administrativas e outras, mais depreciação.
- Some o resultado financeiro e calcule os tributos sobre o lucro.
- Calcule as margens e compare com o mês anterior, com o mesmo mês do ano passado e com o orçamento.
O passo 2 é o gargalo. Sem plano de contas bem desenhado, o que sai do sistema é uma lista de gastos, não uma DRE. A rotina que alimenta isso está descrita em contas a pagar e a receber.
Exemplo prático de DRE com números
Imagine uma distribuidora fictícia que fatura R$ 800 mil por mês. Os números abaixo são um exemplo, não dados de cliente real. Aplicamos a estrutura da tabela anterior e calculamos cada linha.
| Linha | Valor (R$) | % da receita líquida |
|---|---|---|
| Receita operacional bruta | 800.000 | 117,6% |
| (-) Impostos sobre vendas | (112.000) | 16,5% |
| (-) Devoluções | (8.000) | 1,2% |
| = Receita líquida | 680.000 | 100,0% |
| (-) CMV | (408.000) | 60,0% |
| = Lucro bruto | 272.000 | 40,0% |
| (-) Comissões | (24.000) | 3,5% |
| (-) Marketing | (10.000) | 1,5% |
| (-) Frete de entrega | (30.000) | 4,4% |
| (-) Despesas administrativas | (96.000) | 14,1% |
| (-) Depreciação | (12.000) | 1,8% |
| = Resultado operacional (EBIT) | 100.000 | 14,7% |
| (+) Receitas financeiras | 4.000 | 0,6% |
| (-) Despesas financeiras | (22.000) | 3,2% |
| = LAIR | 82.000 | 12,1% |
| (-) IRPJ e CSLL (34% por simplificação) | (27.880) | 4,1% |
| = Lucro líquido | 54.120 | 8,0% |
Como ler esse resultado
Fórmula: Margem bruta = lucro bruto / receita líquida = 272.000 / 680.000 = 40%.
Fórmula: Margem operacional = EBIT / receita líquida = 100.000 / 680.000 = 14,7%.
Fórmula: Margem líquida = lucro líquido / receita líquida = 54.120 / 680.000 = 8,0%.
Repare no que a DRE revela. De cada R$ 100 de receita líquida, R$ 60 vão para o custo da mercadoria e R$ 40 sobram. Desses R$ 40, a operação consome R$ 25,3 e deixa R$ 14,7 de resultado operacional. Os juros levam mais R$ 2,6 e o imposto mais R$ 4,1. Sobram R$ 8 de lucro líquido.
Se o EBITDA interessa a você, some a depreciação ao EBIT: 100.000 + 12.000 = R$ 112.000, ou 16,5% da receita líquida. Veja como ele se compara ao lucro em EBITDA: o que é e como calcular.
Qual a diferença entre DRE gerencial e DRE contábil?
As duas partem dos mesmos números, mas respondem a perguntas diferentes. A DRE contábil é feita para cumprir a lei e prestar contas ao fisco. A DRE gerencial é feita para o dono decidir.
| Aspecto | DRE contábil | DRE gerencial |
|---|---|---|
| Objetivo | Cumprir a legislação e as normas contábeis | Apoiar a decisão do gestor |
| Quem elabora | Contador | Financeiro, controladoria ou BPO financeiro |
| Estrutura | Padronizada pela Lei 6.404 e pelo CPC 26 | Livre; adaptada ao negócio |
| Custos e despesas | Custo e despesa operacional | Variáveis e fixos, com margem de contribuição |
| Frequência | Mensal ou anual, depois do fechamento contábil | Mensal, semanal ou até diária |
| Prazo de entrega | Costuma chegar semanas depois do mês | Nos primeiros dias úteis do mês seguinte |
| Abertura | Resumida | Por unidade, produto, cliente ou projeto |
Modelo de DRE gerencial
A principal mudança na DRE gerencial é separar o que varia com a venda do que não varia. Isso permite enxergar a margem de contribuição e calcular o ponto de equilíbrio. Veja a mesma distribuidora do exemplo, reorganizada.
| Linha | Valor (R$) | % da receita líquida |
|---|---|---|
| Receita bruta | 800.000 | 117,6% |
| (-) Deduções (impostos e devoluções) | (120.000) | 17,6% |
| = Receita líquida | 680.000 | 100,0% |
| (-) CMV | (408.000) | 60,0% |
| (-) Comissões | (24.000) | 3,5% |
| (-) Frete de entrega | (30.000) | 4,4% |
| = Margem de contribuição | 218.000 | 32,1% |
| (-) Marketing | (10.000) | 1,5% |
| (-) Despesas administrativas | (96.000) | 14,1% |
| (-) Depreciação | (12.000) | 1,8% |
| = Resultado operacional | 100.000 | 14,7% |
O resultado operacional é o mesmo, R$ 100 mil. O que muda é a leitura. Agora dá para ver que, de cada R$ 100 vendidos, R$ 32,1 ficam para pagar a estrutura fixa e gerar lucro. A estrutura fixa soma R$ 118 mil (marketing, administrativo e depreciação).
Fórmula: Ponto de equilíbrio (em receita líquida) = custos fixos / % da margem de contribuição = 118.000 / 0,321 = cerca de R$ 367,6 mil.
Ou seja, a empresa precisa de aproximadamente R$ 367,6 mil de receita líquida por mês só para não ter prejuízo operacional. Para entender melhor essa separação, veja custo fixo e custo variável.
Qual a diferença entre DRE e DFC (fluxo de caixa)?
A DRE mede resultado. A DFC (Demonstração dos Fluxos de Caixa, regulada pelo CPC 03) mede dinheiro que entrou e saiu. Uma empresa pode ter lucro na DRE e caixa negativo, e o contrário também ocorre.
| Critério | DRE | DFC / fluxo de caixa |
|---|---|---|
| Pergunta que responde | A empresa teve lucro? | A empresa tem dinheiro? |
| Regime | Competência | Caixa |
| Venda a prazo | Entra na data da venda | Entra quando o cliente paga |
| Compra de estoque | Só vira custo quando o item é vendido | Sai no dia do pagamento |
| Depreciação | Entra como despesa | Não existe: não sai dinheiro |
| Empréstimo recebido | Não é receita | Entra como caixa de financiamento |
| Investimento em máquina | Vira depreciação ao longo do tempo | Sai de uma vez |
Exemplo: lucro na DRE e caixa negativo
Voltemos à distribuidora, com lucro líquido de R$ 54.120. No mesmo mês aconteceu o seguinte: dos R$ 800 mil faturados, os clientes pagaram R$ 700 mil, e R$ 100 mil ficaram a receber. A empresa comprou R$ 60 mil a mais em estoque do que vendeu. Os fornecedores ficaram com R$ 30 mil a pagar. A depreciação de R$ 12 mil não saiu do caixa.
Fórmula: Caixa operacional = lucro líquido + depreciação - aumento de contas a receber - aumento de estoque + aumento de fornecedores.
Caixa operacional = 54.120 + 12.000 - 100.000 - 60.000 + 30.000 = -R$ 63.880.
A DRE mostra lucro de R$ 54 mil, e o caixa operacional do mês foi negativo em quase R$ 64 mil. Nenhum dos dois está errado: medem coisas diferentes. Quem só olha a DRE descobre o problema quando o dinheiro acaba. Por isso a DRE precisa andar junto com o fluxo de caixa e com a gestão do capital de giro.
Modelo de DRE: como montar a sua em planilha
Para montar um modelo de DRE em planilha, use três abas. A primeira recebe os lançamentos, com data de competência, valor e categoria. A segunda é o plano de contas, que liga cada categoria a uma linha da DRE. A terceira é a DRE em si, com os meses nas colunas e as linhas da tabela de estrutura nas linhas, calculada com somas condicionais (SOMASES) sobre a primeira aba.
Acrescente duas colunas ao lado: percentual sobre a receita líquida (análise vertical) e variação contra o mês anterior (análise horizontal). Essas duas colunas é que transformam a DRE em ferramenta de gestão.
Se você pretende ir além, o próximo passo natural é comparar o realizado com o previsto, como explicado em orçamento: budget e forecast.
Como a DRE funciona na rotina de uma PME
Na prática, a DRE é o produto final de uma cadeia: lançamentos corretos, conciliação bancária, classificação por categoria, fechamento do mês e análise. Se um elo falha, o número final mente.
Erros comuns ao montar a DRE
- Misturar caixa e competência. Lançar a venda quando o dinheiro cai e a despesa quando é paga gera um resultado que não é DRE nem fluxo de caixa.
- Não separar pessoa física de jurídica. Despesas pessoais do sócio dentro da empresa contaminam o resultado.
- Misturar custo e despesa. A margem bruta fica errada e o preço de venda é calculado sobre uma base falsa.
- Ignorar impostos sobre a venda. A receita bruta parece boa, mas a receita líquida é bem menor.
- Esquecer a depreciação e as provisões. O resultado parece maior do que é.
- Fechar o mês tarde demais. Uma DRE entregue no dia 25 do mês seguinte serve para auditoria, não para decisão.
- Olhar só o lucro líquido. Sem as margens por etapa, não se descobre onde está o problema.
Ritual mensal sugerido
Feche o mês até o quinto dia útil. Concilie o banco, revise as classificações, gere a DRE e compare com o orçamento. Leve as três maiores variações para a reunião de resultado e defina uma ação para cada uma. Os números ficam melhor distribuídos num dashboard financeiro, e os principais indicadores estão em indicadores financeiros. O conjunto de documentos do fechamento está em relatórios gerenciais.
Como a BGP ajuda com a DRE da sua empresa
Na BGP, a Controladoria assume a rotina financeira da PME: lançamentos, conciliação, plano de contas, fechamento e a DRE gerencial entregue todo mês, já com a análise de variação. A operação do dia a dia é o que se chama de BPO financeiro. Se a sua DRE hoje vem tarde, vem sem categoria ou não bate com o caixa, vale uma conversa. Para entender a função em si, veja o que é controladoria.
Perguntas frequentes sobre DRE
O que significa DRE?
DRE significa Demonstração do Resultado do Exercício. Também é chamada de demonstrativo de resultado ou demonstração de resultados. Ela apresenta receitas, custos, despesas e lucro de um período, mostrando se a empresa teve lucro ou prejuízo, sempre pelo regime de competência.
Qual a estrutura da DRE?
A estrutura segue uma cascata: receita bruta, deduções, receita líquida, custo, lucro bruto, despesas operacionais, resultado operacional (EBIT), resultado financeiro, resultado antes dos tributos, IRPJ e CSLL e, por fim, lucro líquido. Cada linha parte do resultado da anterior.
Qual a diferença entre DRE e fluxo de caixa?
A DRE usa o regime de competência e mede o lucro. O fluxo de caixa usa o regime de caixa e mede as entradas e saídas de dinheiro. Uma venda a prazo aparece na DRE no mês da venda e no caixa só quando o cliente paga.
Qual a diferença entre DRE gerencial e DRE contábil?
A DRE contábil segue a Lei 6.404 e o CPC 26 e atende ao fisco e a terceiros. A DRE gerencial é livre, separa custos fixos e variáveis, mostra a margem de contribuição e sai mais rápido, para apoiar a decisão do gestor.
Como calcular o resultado da DRE?
Parta da receita bruta, subtraia deduções e chegue à receita líquida. Subtraia o custo para ter o lucro bruto, depois as despesas operacionais para ter o EBIT. Some o resultado financeiro, subtraia IRPJ e CSLL e você chega ao lucro líquido.
Toda empresa precisa fazer DRE?
A obrigatoriedade da DRE contábil depende do porte e do enquadramento da empresa, e quem a elabora é o contador. Independentemente da obrigação legal, qualquer PME se beneficia de uma DRE gerencial mensal para entender margens e decidir com base em números.
O que é demonstração do resultado abrangente?
É a demonstração que parte do lucro líquido da DRE e acrescenta os outros resultados abrangentes, como certas variações de valor de ativos que ainda não afetaram o lucro. Ela é prevista no CPC 26 e é comum em empresas maiores.

