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8 de outubro de 2026 · 14 min de leitura

Revisado por Josi Bertuzzi, CEO da BGP

ARE (apuração do resultado do exercício): o que é, lançamentos e exemplo

ARE (apuração do resultado do exercício): o que é, lançamentos e exemplo

A apuração do resultado do exercício (ARE) é a conta transitória da contabilidade em que se encerram, ao fim do exercício social, todas as contas de receita, custo e despesa, para encontrar o lucro ou o prejuízo do período e transferi-lo ao patrimônio líquido. Ela zera as contas de resultado e deixa o número final.

Quem já viu a sigla ARE no balancete costuma ficar com a dúvida: é a mesma coisa que a DRE? A resposta vem junto com o que a ARE é, para que serve e como ficam os lançamentos de encerramento, além de um exemplo numérico com uma PME fictícia e de como o dono lê o resultado ao longo do ano, e não só no fechamento.

O que é ARE (apuração do resultado do exercício) na contabilidade?

ARE é a sigla de apuração do resultado do exercício. Na contabilidade, é uma conta de passagem: ela não representa um bem, uma dívida nem uma receita da empresa. Ela existe só para receber, por alguns instantes, os saldos de todas as contas de resultado e mostrar quanto sobrou (ou faltou) no período.

O exercício social é o período de apuração, que normalmente dura 12 meses. Nas sociedades por ações, a Lei 6.404/76 (art. 175) fixa a duração do exercício em um ano e deixa para o estatuto a data de término. Por isso o exercício não precisa coincidir com o ano civil, embora coincida na grande maioria das empresas. Ao final dele, a contabilidade precisa saber qual foi o resultado, e é isso que a ARE entrega.

Para entender a ARE, vale ter em mente que a contabilidade trabalha com dois grupos de contas. As contas patrimoniais (ativo, passivo e patrimônio líquido) formam o balanço patrimonial e seguem de um exercício para o outro, com o saldo acumulado. As contas de resultado (receitas, custos e despesas) mostram só o que aconteceu no período e precisam começar do zero no exercício seguinte. A ARE é a ponte entre os dois grupos. O conjunto completo dessas peças está no guia de demonstrações contábeis.

Para que serve a apuração do resultado do exercício?

A finalidade da ARE é apurar o resultado e passá-lo para o patrimônio líquido. Na prática, ela cumpre quatro funções:

  • Zerar as contas de resultado. Receitas, custos e despesas de 2025 não podem se misturar com os de 2026. O encerramento devolve todas elas a saldo zero.
  • Revelar o lucro ou o prejuízo. O saldo da ARE depois dos lançamentos é o resultado líquido do exercício.
  • Alimentar o patrimônio líquido. O lucro aumenta o patrimônio líquido; o prejuízo reduz. É esse movimento que fecha a conta entre a DRE e o balanço.
  • Servir de base para decisões societárias e fiscais. A distribuição de lucros, a constituição de reservas e a base de cálculo de tributos partem do resultado apurado.

Para a gestão, a ARE tem um valor menos óbvio: ela obriga a empresa a ter todas as contas classificadas e conciliadas. Quem consegue encerrar o exercício sem sobras tem, em geral, um financeiro organizado. Quem não consegue descobre na ARE os lançamentos fora do lugar.

Quais são as contas de resultado e as contas patrimoniais?

Só entram na ARE as contas de resultado. Por isso, a primeira etapa é separar bem os dois grupos no plano de contas. A classificação completa, com débito e crédito de cada tipo, está no guia de contas contábeis.

CaracterísticaContas de resultadoContas patrimoniais
GruposReceitas, custos e despesasAtivo, passivo e patrimônio líquido
Onde aparecemDemonstração do resultadoBalanço patrimonial
O que medemO desempenho dentro de um períodoA posição da empresa em uma data
Saldo no fim do exercícioEncerrado (zerado) pela ARETransportado para o exercício seguinte
ExemplosReceita de vendas, CMV, salários, aluguel, juros pagosCaixa, estoques, fornecedores, empréstimos, capital social

Uma confusão frequente é achar que a conta de resultado "some" depois do encerramento. Ela continua existindo no plano de contas, só volta a zero para registrar o próximo período. O histórico fica preservado nos livros diário e razão.

Como funciona a ARE: lançamentos de encerramento passo a passo

A ARE funciona em três lançamentos principais, feitos depois que todas as provisões e ajustes do exercício já foram registrados. A lógica é a do método das partidas dobradas: toda conta zerada tem uma contrapartida.

1. Encerramento das contas de receita

As contas de receita têm saldo credor. Para zerá-las, debita-se cada uma pelo seu valor e credita-se a ARE pelo total.

2. Encerramento dos custos e das despesas

Custos e despesas têm saldo devedor. Para zerá-los, credita-se cada conta pelo seu valor e debita-se a ARE pelo total.

3. Transferência do resultado para o patrimônio líquido

Depois dos dois primeiros passos, a ARE tem um saldo. Se for credor (receitas maiores que custos e despesas), houve lucro: debita-se a ARE e credita-se a conta de lucros acumulados. Se for devedor, houve prejuízo: credita-se a ARE e debita-se a conta de prejuízos acumulados. Depois disso, a ARE fica com saldo zero.

Um ponto de atenção: nas sociedades por ações, a Lei 11.638/07 alterou a Lei 6.404/76 para que o lucro não permaneça indefinidamente em lucros acumulados; ele deve ser destinado a reservas ou distribuído como dividendos. Nas sociedades limitadas, o saldo pode permanecer na conta enquanto os sócios decidem o destino. Para o tratamento específico do seu caso, vale confirmar com o contador responsável.

Exemplo prático de ARE com números (PME fictícia)

Imagine a Distribuidora Alfa, uma distribuidora de autopeças fictícia, tributada pelo Lucro Real, com exercício igual ao ano civil. Ao fim do ano, depois de todos os ajustes, as contas de resultado estavam assim:

Conta de resultadoNatureza do saldoValor (R$)
Receita bruta de vendasCredor6.000.000
Receitas financeirasCredor60.000
Deduções da receita (impostos sobre vendas e devoluções)Devedor900.000
CMV (custo das mercadorias vendidas)Devedor3.060.000
Despesas com vendasDevedor420.000
Despesas administrativasDevedor780.000
Despesas financeirasDevedor120.000
Despesa com IRPJ e CSLLDevedor241.200

A despesa com IRPJ e CSLL, lançada contra IRPJ e CSLL a recolher no passivo, foi calculada sobre o resultado antes dos tributos, de R$ 780.000, sem ajustes fiscais, para simplificar: IRPJ de 15% (R$ 117.000), adicional de 10% sobre o que excede R$ 240.000 por ano (R$ 54.000) e CSLL de 9% (R$ 70.200). Total: R$ 241.200. As regras de cada regime estão em regimes tributários.

Passo 1: encerrar as receitas

DébitoCréditoValor (R$)
Receita bruta de vendas6.000.000
Receitas financeiras60.000
ARE6.060.000

Passo 2: encerrar custos e despesas

Debita-se a ARE em R$ 5.521.200 (900.000 + 3.060.000 + 420.000 + 780.000 + 120.000 + 241.200) e creditam-se as seis contas pelos seus respectivos valores.

Passo 3: apurar e transferir o resultado

O saldo credor da ARE é de R$ 6.060.000 menos R$ 5.521.200, ou seja, R$ 538.800. Como é credor, houve lucro:

Fórmula: resultado do exercício = soma das contas de receita − soma dos custos e despesas (incluindo a despesa com IRPJ e CSLL)

O lançamento final é: débito em ARE e crédito em Lucros ou Prejuízos Acumulados, ambos de R$ 538.800. A ARE fica zerada, e o patrimônio líquido da Distribuidora Alfa aumenta no mesmo valor. A conferência pela ótica da receita bruta e líquida bate: R$ 6.000.000 menos R$ 900.000 dá R$ 5.100.000 de receita líquida; menos o CMV de R$ 3.060.000, o lucro bruto é de R$ 2.040.000; menos R$ 1.260.000 de despesas (vendas e administrativas, R$ 1.200.000, mais financeiras líquidas de R$ 60.000, ou seja, R$ 120.000 menos R$ 60.000), chega-se a R$ 780.000 antes dos tributos, e a R$ 538.800 depois deles.

Essa conta é a mesma da DRE do exercício, o que nos leva à pergunta seguinte.

Qual a diferença entre ARE e DRE?

A ARE é um procedimento contábil de encerramento, feito nos livros. A DRE é a demonstração que apresenta o resultado de forma organizada para quem vai ler. Os dois chegam ao mesmo lucro, mas servem a públicos e momentos diferentes.

CritérioAREDRE
NaturezaConta transitória, lançamento de encerramentoDemonstração contábil, relatório
Quando é feitaAo fim do exercícioMensal, trimestral ou anual
Quem usaContabilidadeSócios, gestores, bancos, investidores, fisco
FormatoDébitos e créditosEstrutura vertical: receita, deduções, custos, despesas e lucro
ResultadoSaldo que vai para o patrimônio líquidoLucro ou prejuízo detalhado por etapas

A DRE mostra o resultado; a ARE encerra as contas e leva o resultado para o balanço. O detalhamento da estrutura da DRE, do lucro bruto ao líquido, está em lucro bruto, operacional e líquido.

Como a ARE se liga ao balanço, à DMPL e às demais demonstrações?

O lucro apurado na ARE não fica parado. Ele percorre as demonstrações:

  • Na DRE, aparece como lucro líquido do exercício.
  • No balanço, aparece dentro do patrimônio líquido (lucros acumulados ou reservas), e é ele que faz o ativo igualar o passivo mais o patrimônio líquido.
  • Na DMPL e na DLPA, aparece como a origem do aumento do patrimônio líquido no ano, ao lado das destinações (reservas e dividendos).
  • Na DFC, é o ponto de partida do método indireto, que ajusta o lucro por tudo o que não foi caixa.

Antes da ARE, o contador confere o balancete de verificação: se os débitos e créditos não fecham, a ARE herda o erro. E o regime que sustenta tudo é o de competência, o mesmo explicado em regime de caixa e regime de competência: a receita entra no período em que é gerada, e a despesa no período em que é consumida, não quando o dinheiro se move. Essa é uma das bases dos princípios contábeis.

O que precisa ser lançado antes de rodar a ARE?

Encerrar o exercício sem os ajustes é o jeito mais rápido de apurar um resultado errado. Antes da ARE, normalmente o time contábil e financeiro precisa ter registrado:

Como a ARE funciona na rotina de uma PME

Na maioria das PMEs, a ARE roda uma vez por ano, dentro do sistema contábil, e o dono só vê o resultado: "deu lucro de tanto". O problema é esperar o fim do ano para descobrir. Quem gerencia bem usa a lógica da ARE todos os meses, no fechamento mensal da Controladoria ou do próprio time financeiro. O passo a passo prático é este:

  1. Fechar o mês com o financeiro conciliado. Extratos bancários, cartões e contas a pagar e a receber batidos com o ERP.
  2. Classificar tudo no plano de contas. Cada lançamento no grupo certo: receita, dedução, custo ou despesa.
  3. Lançar os ajustes de competência. Provisões, depreciação, estoque e despesas antecipadas.
  4. Montar a DRE do mês e do acumulado. É o resultado "parcial" que a ARE vai confirmar no fim do ano.
  5. Comparar com o orçamento e o mês anterior. Diferenças acima do esperado viram pergunta na reunião de resultado.
  6. No fim do exercício, rodar a ARE e conferir. O lucro da ARE precisa ser igual ao da DRE anual e ao movimento do patrimônio líquido.

Erros comuns na apuração do resultado

  • Misturar o caixa com o resultado. Lucro de R$ 538.800 não significa R$ 538.800 no banco; o dinheiro pode estar em estoque, em contas a receber ou ter virado investimento em equipamentos.
  • Lançar despesa no mês errado. Pagar em janeiro uma conta de dezembro e registrar em janeiro distorce os dois períodos.
  • Esquecer as provisões. Férias, 13º e inadimplência esperada ficam fora e o lucro sai inflado, até a conta chegar.
  • Misturar despesas pessoais dos sócios com as da empresa. O resultado deixa de refletir o negócio. É um dos motivos para separar as finanças pessoais e empresariais.
  • Classificar investimento como despesa, ou o contrário. A compra de um equipamento vai para o imobilizado e é depreciada; tratá-la como despesa derruba o lucro do ano. Veja custo, despesa e investimento.
  • Deixar contas de resultado com saldo no balanço. Sinal de que o encerramento ficou incompleto.

Como ler o número para decidir

O resultado da ARE é um ponto de chegada. Para decidir, o dono precisa olhar para o caminho. Se o lucro caiu, as perguntas que ajudam são: a receita líquida caiu ou foi o CMV que subiu? As despesas de vendas, gerais e administrativas cresceram mais que a receita? Há mais despesa financeira por causa de dívida cara? O método de análise horizontal e vertical responde a isso comparando os períodos e o peso de cada linha sobre a receita.

Se o lucro existe, mas o caixa é curto, o assunto deixa de ser resultado e passa a ser fluxo de caixa e capital de giro. E se a empresa tem lucro contábil mas ele não cobre o custo do capital investido, a conversa é a do lucro contábil e lucro econômico.

ARE contábil e resultado gerencial: onde está a diferença para o gestor?

A ARE trata do resultado societário e fiscal, com as regras exigidas pela contabilidade. O gestor precisa de algo mais rápido e mais aberto: o resultado por produto, cliente, unidade ou centro de custo, todo mês, sem esperar o fim do exercício. Essa é a visão da contabilidade gerencial, que usa a mesma base de dados da contabilidade, mas organiza a informação para decidir. A DRE gerencial e o conjunto de relatórios gerenciais do fechamento do mês fazem essa ponte.

Na prática, dois cuidados evitam retrabalho. O primeiro é garantir que o resultado gerencial e o contábil partam do mesmo plano de contas; quando partem de bases diferentes, o dono tem dois lucros e nenhum deles é confiável. O segundo é separar quem faz cada papel: o contador cuida da apuração e das obrigações legais, e a gestão financeira interpreta o número. A distinção está em controller e contador.

Onde a ARE entra no trabalho da BGP

A BGP não faz o encerramento contábil no lugar do contador da empresa. Onde a Controladoria entra é no que vem antes e depois da ARE: conciliação bancária e contábil, controle de custos e margem, e a leitura mensal do resultado junto com a gestão, para que o lucro do fim do ano não seja uma surpresa. O ciclo mensal da Controladoria da BGP mantém os dados organizados para que o encerramento saia limpo e o número faça sentido para quem decide.

No Analytics, o GO BI conecta o ERP e as planilhas e publica a DRE, a margem e os indicadores em painéis de gestão, para o dono acompanhar o resultado do mês em vez de esperar o relatório anual. Mais sobre a frente em Analytics. Um bom ponto de partida é entender o que um dashboard financeiro precisa mostrar.

Falar com um especialista da BGP

Perguntas frequentes sobre apuração do resultado do exercício

O que é ARE na contabilidade?

ARE é a apuração do resultado do exercício: uma conta transitória usada no encerramento do período para receber os saldos das contas de receita, custo e despesa e calcular o lucro ou o prejuízo. Depois, o saldo é transferido ao patrimônio líquido e a conta fica zerada.

Qual a finalidade da apuração do resultado do exercício?

A finalidade é encerrar as contas de resultado, calcular o lucro ou o prejuízo do exercício e levar esse valor para o patrimônio líquido. Com isso, o resultado do ano não se mistura com o do ano seguinte e o balanço fecha com o resultado incorporado.

Como fazer a apuração do resultado do exercício?

Primeiro faça os ajustes e provisões do período. Depois debite as contas de receita e credite a ARE, credite as contas de custo e despesa e debite a ARE. O saldo restante é o resultado, que se transfere para lucros ou prejuízos acumulados.

Qual a diferença entre ARE e DRE?

A ARE é o procedimento de encerramento feito nos livros contábeis, com débitos e créditos. A DRE é a demonstração que apresenta o resultado de forma organizada, da receita ao lucro líquido. Os dois chegam ao mesmo valor de lucro ou prejuízo.

Quando a ARE tem saldo credor e quando tem saldo devedor?

A ARE tem saldo credor quando as receitas superam os custos e despesas, o que indica lucro. Tem saldo devedor quando custos e despesas superam as receitas, o que indica prejuízo. Em ambos os casos, o saldo é transferido para o patrimônio líquido.

Quais são as contas de resultado?

São as contas de receita, de custo e de despesa, como receita de vendas, CMV, salários, aluguel, tarifas e juros pagos. Elas medem o desempenho do período e são zeradas pela ARE no encerramento. As contas de ativo, passivo e patrimônio líquido são as patrimoniais.

Para onde vai o saldo da ARE?

O saldo vai para o patrimônio líquido, na conta de lucros ou prejuízos acumulados. No caso de sociedades por ações, o lucro precisa ser destinado a reservas ou distribuído como dividendos, conforme a Lei 6.404/76, e não pode permanecer parado como saldo.

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