Revisado por Josi Bertuzzi, CEO da BGP
Princípios contábeis: quais são, o que diz cada um e exemplos

Princípios contábeis são as regras básicas que orientam como a contabilidade reconhece, mede e registra os fatos de uma empresa. No Brasil, o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) os organiza em seis princípios: entidade, continuidade, oportunidade, registro pelo valor original, competência e prudência. Eles garantem que os números sejam comparáveis e confiáveis.
O que cada princípio contábil diz, em linguagem de dono de empresa e com exemplos, está numa tabela-resumo, junto com a diferença entre princípios, postulados e convenções. Um exemplo numérico completo e a rotina da PME evitam que o financeiro conte uma história diferente da contabilidade.
O que são princípios contábeis e para que servem?
Pense nos princípios como o "código de trânsito" da contabilidade. Cada contador pode ter o seu estilo de dirigir, mas todos param no sinal vermelho. Sem regras comuns, duas empresas idênticas apresentariam lucros diferentes só por escolherem formas diferentes de registrar a mesma venda, e ninguém conseguiria comparar um balanço com outro.
Na prática, os princípios servem a três públicos:
- O dono e os sócios: sabem que o resultado do mês mostra a realidade da operação, e não o humor de quem lançou os dados.
- Bancos, investidores e compradores: leem as demonstrações contábeis confiando que seguem as mesmas regras de qualquer outra empresa.
- Fisco, auditoria e contador: têm um padrão para conferir o que foi registrado.
Os princípios não dizem como montar cada lançamento. Eles dão a lógica por trás da estrutura do plano de contas, dos critérios de reconhecimento de receita e despesa e da forma como o balanço patrimonial avalia o que a empresa tem e deve.
Quais são os princípios contábeis?
A Resolução CFC nº 750/93 listou os "Princípios Fundamentais de Contabilidade", num total de sete: entidade, continuidade, oportunidade, registro pelo valor original, atualização monetária, competência e prudência. Em 2010, a Resolução CFC nº 1.282 atualizou o texto, passou a chamá-los simplesmente de "Princípios de Contabilidade" e retirou a atualização monetária da lista. Por isso aparecem buscas por "7 princípios" e por "6 princípios": a primeira é o desenho original, a segunda é a versão de 2010.
| Princípio | Ideia central | Pergunta que responde |
|---|---|---|
| Entidade | A empresa é separada dos sócios | De quem é este gasto? |
| Continuidade | A empresa segue operando no futuro | Por qual critério avalio o patrimônio? |
| Oportunidade | Registrar na hora certa e por inteiro | Quando lançar o fato? |
| Registro pelo valor original | Parte do valor da transação, em moeda nacional | Por quanto registro? |
| Competência | Receita e despesa pertencem ao período do fato gerador | Em que mês reconheço? |
| Prudência | Cautela diante de estimativas e incertezas | Como estimar sem exagerar o lucro? |
Em 2016, ao aprovar a NBC TG Estrutura Conceitual, o CFC revogou as Resoluções 750/93 e 1.282/10, com efeito a partir de 2017. Desde então, a base técnica é a Estrutura Conceitual do CPC 00, hoje na revisão R2, que veremos adiante e que se conecta ao tema de IFRS e CPC. Mesmo assim, os seis princípios continuam sendo o vocabulário comum de contadores, auditores e concursos, e continuam explicando o que acontece nos números da sua empresa.
O que diz cada princípio contábil, com exemplos?
Princípio da entidade
O patrimônio da empresa não se confunde com o patrimônio dos sócios. A contabilidade registra só o que pertence à entidade, e o cartão de crédito pessoal do dono não entra no resultado da empresa. O Código Civil (art. 49-A) reforça a lógica: a pessoa jurídica tem existência distinta da de seus sócios.
Exemplo: o sócio paga a escola dos filhos com o caixa da empresa. Pelo princípio da entidade, isso não é despesa operacional. É retirada do sócio, ou seja, distribuição de lucros, adiantamento ou empréstimo. Misturar os dois infla os custos, reduz o lucro e atrapalha qualquer análise de margem. O passo a passo para organizar isso está em como separar finanças pessoais e empresariais, e a forma correta de remunerar o sócio aparece em pró-labore e distribuição de lucros.
Princípio da continuidade
A contabilidade presume que a empresa continuará operando por prazo indeterminado. Por isso, o patrimônio é avaliado pensando no uso futuro, e não numa liquidação imediata.
Exemplo: uma máquina que custou R$ 200.000 e vai durar dez anos é registrada como ativo e depreciada ao longo da vida útil. Se a empresa estivesse fechando amanhã, o valor seria o de venda forçada, muito diferente. É a continuidade que justifica a depreciação e a amortização em vez de baixar o bem inteiro no dia da compra. Quando a continuidade deixa de ser garantida, como numa dívida impagável ou numa perda de licença, as notas explicativas precisam alertar o leitor.
Princípio da oportunidade
Os fatos devem ser registrados no momento em que ocorrem, de forma tempestiva e íntegra, ou seja, completos. Registrar tarde demais, ou só metade da operação, deforma a informação.
Exemplo: um contrato de aluguel de galpão assinado em março, com multa por rescisão, deve aparecer nos controles em março. Se o financeiro só descobre o compromisso quando a cobrança chega, o relatório do mês já nasceu errado. Na rotina, a oportunidade é a razão de existirem a conciliação bancária em dia e o fechamento no início do mês seguinte. A trilha do registro fica no livro diário e no livro razão.
Princípio do registro pelo valor original
Os componentes do patrimônio entram na contabilidade pelo valor da transação, em moeda nacional. Esse valor é a âncora de verificação: existe nota fiscal, contrato ou extrato que o comprova.
Exemplo: a empresa comprou uma empilhadeira por R$ 90.000. Mesmo que o equipamento valha R$ 110.000 no mercado, o ativo imobilizado continua registrado pelo valor original, menos a depreciação acumulada. As normas atuais permitem ajustes específicos, como valor justo em alguns instrumentos e redução ao valor recuperável, mas o ponto de partida é o custo documentado. É também por isso que o valor contábil e o valor patrimonial de uma empresa raramente coincidem com o preço que um comprador pagaria.
Princípio da competência
Receitas e despesas pertencem ao período em que o fato gerador ocorreu, independentemente de quando o dinheiro entra ou sai. É o princípio que mais pesa na vida do dono de PME, porque separa lucro de caixa. A Lei 6.404/76 (art. 177) exige que a escrituração obedeça ao regime de competência.
Exemplo: a venda feita em dezembro e recebida em fevereiro é receita de dezembro. A comissão do vendedor sobre essa venda é despesa de dezembro, mesmo paga em janeiro. A explicação completa está em regime de caixa e regime de competência, e o desenho do resultado por período está na DRE. Para entender o que entra como venda e o que são deduções, veja receita bruta e líquida.
Princípio da prudência
Diante de alternativas válidas para estimar um valor, a contabilidade adota a que não superestima ativos e receitas nem subestima passivos e despesas. Não é pessimismo, é cautela: quando há incerteza, o lucro não deve nascer inflado.
Exemplo: a empresa tem R$ 300.000 a receber de clientes e o histórico mostra que parte deles não paga. Reconhecer uma provisão para devedores duvidosos (PDD) reduz o lucro hoje para refletir uma perda provável. Fazer isso bem exige acompanhar a inadimplência de forma regular. Prudência também não autoriza criar "reservas escondidas": exagerar provisões é distorcer o resultado para o outro lado.
Qual a diferença entre princípios, postulados e convenções contábeis?
Em livros e provas, aparecem as expressões "postulados, princípios e convenções". A divisão clássica da teoria contábil é esta:
- Postulados: premissas aceitas sem demonstração, como a entidade e a continuidade. Na classificação antiga, esses dois eram postulados, não princípios.
- Princípios: regras que decorrem dos postulados e orientam o reconhecimento e a mensuração, como o custo como base de valor (o valor original), a realização da receita e a confrontação das despesas com as receitas (a base da competência).
- Convenções: restrições práticas que moderam a aplicação dos princípios, como a materialidade (o que é irrelevante não pede rigor máximo), a objetividade, a consistência (usar o mesmo critério de um período para o outro) e o conservadorismo, que deu origem à prudência.
As resoluções do CFC juntaram tudo sob o nome de princípios e trataram entidade, continuidade e prudência como princípios. Para a rotina da PME, a nomenclatura importa menos do que o efeito: o mesmo critério todo mês, os fatos registrados no período certo e o patrimônio da empresa separado do dos sócios.
E a Estrutura Conceitual do CPC 00?
A Estrutura Conceitual para Relatório Financeiro (CPC 00 R2) é o documento do Comitê de Pronunciamentos Contábeis que sustenta as normas atuais. Ela define o objetivo do relatório financeiro e as características qualitativas da informação: relevância e representação fidedigna como fundamentais, e comparabilidade, verificabilidade, tempestividade e compreensibilidade como de melhoria. Trata a continuidade como premissa subjacente e explica o regime de competência como a forma de mostrar o desempenho do período. Na prática, o que o CFC chamava de oportunidade se aproxima de tempestividade, e o que chamava de prudência aparece como cautela no exercício dos julgamentos.
Quais são os 5 elementos contábeis e os 4 pilares da contabilidade?
Duas buscas frequentes vizinhas ao tema merecem resposta curta.
Os 5 elementos das demonstrações contábeis, segundo a Estrutura Conceitual, são: ativo, passivo, patrimônio líquido, receita e despesa. Os três primeiros formam o balanço; os dois últimos formam a DRE. Cada um tem um critério de reconhecimento que os princípios acima ajudam a aplicar. Você aprofunda em ativo e passivo, em patrimônio líquido e em contas contábeis, débito e crédito.
Já "4 pilares da contabilidade" não é um termo oficial das normas brasileiras. Na internet, o nome costuma ser usado de formas diferentes por cada autor, geralmente para agrupar as grandes funções da área, sem uma lista padrão. Se você encontrar a expressão num material, confirme qual critério o autor adotou antes de usá-la como referência.
Para o setor público, a contabilidade segue normas próprias (as NBC TSP), com princípios adaptados ao orçamento e ao patrimônio público. Este guia trata da contabilidade das empresas.
Exemplo prático: como os princípios mudam o lucro do mês
Imagine uma distribuidora de autopeças fictícia que, em março, faz as seguintes operações:
- Vende R$ 400.000 em mercadorias: R$ 100.000 à vista e R$ 300.000 a prazo, para receber em abril.
- As mercadorias vendidas custaram R$ 240.000 e foram pagas ao fornecedor em fevereiro.
- As comissões sobre as vendas somam R$ 20.000 e serão pagas em abril.
- Paga em março um seguro anual de R$ 12.000, que cobre de março a fevereiro.
Veja a visão pelo caixa e a visão pela competência, que aplica o princípio da competência:
| Item | Visão de caixa (março) | Visão de competência (março) |
|---|---|---|
| Vendas | R$ 100.000 recebidos | R$ 400.000 |
| Custo das mercadorias vendidas | R$ 0 (pago em fevereiro) | (R$ 240.000) |
| Comissões | R$ 0 (pagas em abril) | (R$ 20.000) |
| Seguro | (R$ 12.000) | (R$ 1.000), ou seja, R$ 12.000 ÷ 12 |
| Resultado | R$ 88.000 | R$ 139.000 |
Fórmula: lucro por competência = vendas − custo das mercadorias − comissões − parcela do seguro = 400.000 − 240.000 − 20.000 − 1.000 = R$ 139.000.
A diferença de R$ 51.000 entre as duas visões fecha assim: 139.000 − 300.000 (vendas ainda não recebidas) + 240.000 (custo pago antes) + 20.000 (comissões ainda não pagas) − 11.000 (seguro pago adiantado, mas só R$ 1.000 pertence a março) = R$ 88.000, que é o resultado de caixa.
Agora aplique a prudência. Suponha que, pelo histórico da empresa, 2% das vendas a prazo não são pagas. A provisão é de R$ 6.000 (2% de R$ 300.000), e o lucro de março cai para R$ 133.000. Nada saiu do caixa, mas a informação passou a refletir uma perda provável. Esse é o tipo de diferença que explica por que o lucro da DRE e o saldo do banco quase nunca batem, e por que a leitura do lucro contábil e do lucro econômico exige cuidado.
Como os princípios contábeis funcionam na rotina de uma PME
A contabilidade societária costuma ser feita pelo escritório contábil, e o dono só vê o resultado no fim do ano. O problema é que o financeiro e a gestão decidem todos os dias, e decidem melhor quando os números do mês seguem a mesma lógica. Fechar o mês nessa lógica é parte do ciclo mensal da Controladoria. A ponte entre os dois mundos é a contabilidade gerencial.
Passo a passo para aplicar os princípios no dia a dia
- Separe as contas (entidade). Conta bancária, cartão e despesas da empresa nunca se misturam com os do sócio. Retirada de sócio tem conta própria.
- Registre pela data do fato, não do pagamento (competência). Cada lançamento no ERP precisa de data de competência e data de caixa, as duas preenchidas.
- Feche o mês até um prazo fixo (oportunidade). Defina o dia do fechamento e concilie banco, cartão e adquirente antes de olhar o resultado.
- Mantenha o mesmo critério todo mês (consistência). Se você muda a forma de ratear um custo, avise e refaça o comparativo.
- Estime perdas com método (prudência). Defina um percentual de provisão com base em histórico, e revise a cada trimestre.
- Documente tudo (valor original). Cada valor precisa de um comprovante que o sustente.
Erros comuns que se veem no financeiro de PMEs
- Reconhecer receita só quando o dinheiro cai, fazendo o resultado "pular" entre meses.
- Lançar despesas pessoais como custo da empresa, o que viola a entidade e distorce a margem.
- Tratar compra de equipamento como despesa do mês, quando deveria ser ativo depreciado.
- Pagar antecipado (seguro, licenças, aluguel) e lançar tudo de uma vez no mês do pagamento.
- Não provisionar clientes que claramente não vão pagar, deixando o ativo inflado.
- Fechar o mês com 20 ou 30 dias de atraso, quando a decisão já foi tomada no escuro.
Como ler o número para decidir
Quando o lucro por competência está bem acima do caixa, olhe para o prazo de recebimento: a empresa está vendendo, mas financiando o cliente. Cabe então revisar condição de venda e acompanhar o fluxo de caixa com projeção. Quando o lucro é bom e o caixa também, o resultado é sólido. Quando o caixa está bem acima do lucro, desconfie de adiantamentos, de receita antecipada ou de contas a pagar acumuladas. A leitura mês a mês fica mais rápida num dashboard financeiro que mostre resultado e caixa lado a lado, com a margem de cada mês. Se um dos dois piora por dois meses seguidos, esse é o primeiro item da reunião de resultado.
O que acontece quando a empresa não cumpre os princípios contábeis?
O descumprimento tem consequências em três frentes. Na gestão, os relatórios mentem: a empresa acredita que lucrou quando não lucrou, ou o contrário, e distribui lucro que não existe. Na relação com terceiros, bancos e investidores desconfiam de balanços inconsistentes, e uma auditoria interna ou externa tende a apontar ressalvas. Para o profissional contábil, as normas do CFC preveem responsabilização ética e, em casos graves, sanções.
No dia a dia da PME, o efeito mais comum é prático: decisões de preço, contratação e investimento tomadas sobre um lucro que não existe. As notas explicativas são o lugar onde as políticas e os critérios usados ficam registrados, e é lá que um leitor externo confere se a empresa seguiu as regras.
Onde a Controladoria da BGP entra nesse assunto
Os princípios contábeis são a base do que o time de Controladoria da BGP faz todo mês: conciliação bancária e contábil, fluxo de caixa projetado, controle de custos e margem e leitura do resultado junto com a gestão. O GO BI, incluso na Controladoria, mostra caixa e resultado lado a lado para que o dono veja a diferença entre os dois sem esperar uma planilha. A leitura mensal é feita com a gestão, e o resultado vira plano de ação. Para entender o papel da área, veja o que é controladoria. Quando a pergunta é quanto a empresa vale, o GO Valuation, da frente de Analytics, e os projetos do On Demand cobrem esse caminho, e os números só se sustentam quando os critérios contábeis estão em ordem, como explicamos em valuation e em ativo intangível e goodwill.
Perguntas frequentes sobre princípios contábeis
Quais são os 7 princípios contábeis?
Os sete da Resolução CFC 750/93 são: entidade, continuidade, oportunidade, registro pelo valor original, atualização monetária, competência e prudência. Em 2010, a Resolução CFC 1.282 retirou a atualização monetária, e a lista passou a ter seis princípios. As duas resoluções foram revogadas em 2017, e o conteúdo segue na Estrutura Conceitual (CPC 00).
Quais são os princípios contábeis?
A lista tradicional tem seis: entidade, continuidade, oportunidade, registro pelo valor original, competência e prudência. As resoluções que os listavam foram revogadas em 2017, mas a lógica continua na Estrutura Conceitual (CPC 00). Eles orientam como a empresa reconhece, mede e registra receitas, despesas, ativos e passivos, para que os demonstrativos sejam comparáveis e confiáveis.
Quais são os 5 elementos contábeis?
Segundo a Estrutura Conceitual do CPC 00 (R2), são ativo, passivo, patrimônio líquido, receita e despesa. Os três primeiros compõem o balanço patrimonial, e os dois últimos compõem a DRE, que apura o resultado do período.
Quais são os 4 pilares da contabilidade?
Não existe um conjunto oficial de "4 pilares" nas normas brasileiras. O termo é usado de formas diferentes por autores e cursos. As referências técnicas são os princípios do CFC e a Estrutura Conceitual do CPC 00, que é o que de fato embasa as demonstrações.
Qual a diferença entre o princípio da competência e o regime de caixa?
A competência reconhece receitas e despesas no período em que o fato ocorre, independentemente do pagamento. O regime de caixa reconhece só quando o dinheiro entra ou sai, que é a lógica do livro caixa. A competência mostra o desempenho econômico; o caixa mostra a liquidez, e uma empresa precisa dos dois.
O princípio da entidade vale para MEI e empresa pequena?
Sim, mas há nuances. Juridicamente, o MEI e o empresário individual não têm separação patrimonial entre pessoa física e empresa. Mesmo assim, separar as contas é indispensável para saber o resultado real do negócio, e a gestão financeira ganha clareza com isso.
Princípios contábeis são obrigatórios?
As resoluções que listavam os princípios foram revogadas em 2017, mas o conteúdo continua obrigatório por outro caminho: a Estrutura Conceitual e as demais normas do CFC (NBC) são de observância obrigatória para o profissional contábil, e a Lei 6.404/76 exige escrituração pelo regime de competência.


